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"Chéri" e o "Fim de Chérie" de Colette, traduzidos por Saramago para a Estúdios Cor

Sábado, 17.01.09

José Saramago traduziu na década de 60, os dois romances de Colette, Chéri e O Fim de Chéri, para a Estúdios Cor, editora com a qual mantinha, à época, uma estreita colaboração enquanto tradutor. Entre finais dos anos 50 e os anos 80, Saramago traduziu cerca de 60 títulos de, entre outros, Tolstoi, Jean Cassou, Gabriel Audisio, Guy de Maupassant e André Bonnard, além de Colette. Alguns destes títulos encontram-se na exposição permanente A Semente e os Frutos na Fundação José Saramago, no 1º andar da Casa dos Bicos. No núcleo "Formação", o curador Fernando Goméz Aguilera incluiu algumas das traduções de Saramago como Chéri, Anna Karenina, Mademoiselle Fifi (recentemente publicado pela Relógio D'Agua), Gigi (recentemente publicado pela A Sangue Frio editores), por considerar este período muito relevante na produção literária de Saramago.

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publicado por Fundação Saramago às 12:58

"Chéri" de Colette, traduzido por José Saramago, editado em 2009 pela Editorial Presença

Sábado, 17.01.09

Em 1960, José Saramago traduziu o "mais célebre romance" de Colette, Chéri (1920), com a chancela da Estúdios Cor. Em 2009, a Editorial Presença recupera esta "exemplar tradução" que "restitui-nos, em língua portuguesa, os cambiantes da escrita de Colette com a mesma magnífica pujança e nitidez", refere-se na contracapa desta edição.

 

A mesma tradução da Estúdios Cor havia já sido publicada, em 1988, pela editora Contexto:

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publicado por Fundação Saramago às 12:36

Colaboração de José Saramago, Jordi Savall e Raimon Panikkar a partir da música de Joseph Haydn

Sábado, 10.01.09

Em 2007, a editora discográfica catalã AliaVox editou a gravação de "As Sete Últimas Palavras de Cristo" de Joseph Haydn pela Orquestra Le Concert des Nations, sob a direcção do maestro e compositor Jordi Savall e acompanhado pelos textos originais de José Saramago e Raimon Panikkar.

O desafio havia sido proposto por Savall a Saramago uns anos antes e, apesar de "ambos concordarem que as palavras [que expliquem a música de Haydn] não eram necessárias", concordaram também que deveriam sê-lo, conforme relata Pilar del Río. Saramago dedicou-se a um árduo trabalho de pesquisa, já iniciado aquando de O Evangelho segundo Jesus Cristo. No final, "escreveu sobre cada uma delas [as palavras de Cristo na cruz], não para explicar a música mas para acrescentar ao seu Evangelho as páginas que faltavam".
Passados mais de duzentos anos desde a sua criação, uma encomenda especial feita a Haydn nos começos de 1786, "pareceu-nos apropriado dar esta responsabilidade a dois grandes mestres do pensamento espiritual e humanístico contemporâneo: Raimon Panikkar e José Saramago complementam as breves citações do texto evangélico com uns textos e comentários que reflectem as suas profundas convicções espirituais e humanísticas", justifica Jordi Savall no texto introdutório do CD.
A 19 de Junho de 2011, o Ministério da Cultura e a Fundação José Saramago juntaram-se para realizar um desejo antigo de José Saramago em assistir à apresentação deste trabalho na cidade de Lisboa. Como refere Gabriela Canavilhas, então Ministra da Cultura, "Querendo assinalar o aniversário da morte do nosso Prémio Nobel da Literatura, com a cumplicidade de Pilar del Río, o Ministério da Cultura apostou na realização deste desejo silencioso de Saramago, prestando-lhe justíssimo tributo, glorificando a palavra e a música, no concerto dos grandes génios que são Saramago e Haydn".
O espectáculo ocorreu no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com a concepção de cena de Teresa Villaverde e interpretação da Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida pelo maestro Moritz Gnann.
As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de José Saramago

Palavra Primeira

Deus, Pai, Senhor, aqui me tens. Aqui me tens, finalmente, neste monte escalvado a que chamam Gólgota e aonde, passo a passo, vieste encaminhando a minha vida a fim de que todas as profecias fossem cumpridas. Sou o da cruz alta, a que está ao centro, e os homens que me fazem companhia, um de cada lado, são dois ladrões vulgares, daqueles que se contentam com roubar pouco, que se fossem dos que roubam muito de certeza não viriam aqui crucificados. O que está à minha direita protesta que não quer morrer, grita como um doido furioso, dá arrancos com o corpo como se pretendesse arrancar a cruz do chão e fugir com ela às costas, ao outro já o vejo resignado, tem a cabeça descaída, apenas geme. Penso que terei de lhe dizer alguma coisa que o console antes que isto se acabe. O bom que tem este lugar para os condenados é ser Jerusalém a última imagem que levam da vida. Não estamos sós. Entre os soldados romanos, os doutores da lei, os chefes dos sacerdotes, os anciãos, e a gente comum que acudiu ao espectáculo, distingo, embora mal porque as dores me estão nublando os olhos, minha mãe com algumas mulheres, e também, sim, está também Maria Madalena. E está João, mas aos outros não os vejo, terão fugido. À morte deveria assistir-se em silêncio, não este clamor de insultos, esta gritaria, este ódio insensato, estas palavras de escárnio: “Salva-te a ti mesmo se és o rei dos judeus, lá está aquele que deitava abaixo o templo e tornava a reconstruí-lo em três dias, que desça agora da cruz para nós vermos e acreditarmos nele”. Deus, Pai, Senhor, era isto necessário? Não te bastava a simples morte? Já que terei de perder a vida, perdoa-lhes tu o alvoroto, porque não sabem o que fazem. E eu? Virei a saber o que fiz no mundo? E tu, Deus, Pai, Senhor, tens a certeza de que tudo o que fizeste foi bem feito?

 

Palavra Segunda

Deus, Pai, Senhor, não sei como o poderei confessar, tão confundido e humilhado sinto o meu espírito. Compadecido do sofrimento do ladrão manso, não encontrei nada melhor para o consolar que prometer-lhe o paraíso. “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, foram as minhas formais palavras. Mas logo me perguntei se a soberba, ou o orgulho, ou a vaidade, foi o que me levou a prometer algo que não estava em meu poder dar. Antes, numa das suas fúrias, o ladrão bravo tinha-me invectivado: “Então não és o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós!” Mas o ladrão manso repreendeu-o com estas justas palavras, em verdade inesperadas em pessoa da sua condição: “Não tens temor a Deus, tu que estás a sofrer a mesma condenação? Nós estamos aqui a pagar o justo castigo pelos actos que temos praticado, mas este não fez nada de mal”. E foi aí, Deus, Pai, Senhor, que caí em tentação: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, disse. Como pude eu esquecer-me do Juízo Universal que, esse sim, há-de separar o trigo do joio, o bom do mau, o virtuoso do pecador? Como pude esquecer o que disse o profeta: “Eu, o Senhor, penetro no íntimo do homem, e examino o seu coração, e a cada um dou segundo o seu procedimento.”? De todo modo, sou escravo da minha promessa, este homem irá comigo, comigo se apresentará à tua porta, e tu, Deus, Pai, Senhor, se quiseres receber-me a mim, terás também de recebê-lo a ele, porque eu, sozinho, não entrarei. Honra a promessa que fiz, já que neste suplício me desonraste.

 

Palavra Terceira

Deus, Pai, Senhor, quando, para castigar a prosápia dos homens que estavam levantando aquela torre com a intenção de chegar ao céu, lhes desordenaste a linguagem, talvez não tenhas pensado em todas as consequências do acto a que foste movido por uma ira semelhante à do dono da vinha quando dá por que os meliantes se dispõem a assaltá-la. Talvez este pensamento, na aparência fora de lugar, seja fruto do delírio, da angústia e das terríveis dores que me trespassam, mas, nesta hora última da minha passagem pela terra, não estaria bem que entre pai e filho ficassem coisas caladas. Aquela mulher que além vês, entre João e Maria Madalena, é minha mãe, tu o saberás melhor que ninguém. Nunca vi que lhe tivesses dado atenção em todos estes anos, mas não é disso que quero falar. O meu pensamento é outro. Quando confundiste a linguagem dos homens, houve palavras que se perderam, outras que tomaram caminhos desviados, outras que deixaram de pertencer a quem, tempos atrás, havia sido seu legítimo proprietário. Houve uma época, talvez na idade de ouro, falando a língua que tu confundiste, em que as mulheres podiam ser tão justas e piedosas quanto os homens fossem capazes de o ser, mas já não o eram quando eu vim ao mundo, porque, em hebraico, por exemplo, para justo e piedoso não há formas femininas equivalentes. Tendo eu que nascer forçosamente de uma mulher, como foi possível, Deus, Pai, Senhor, não teres reparado que ela não podia ser digna de me gerar, uma vez que não era piedosa nem justa? Rogar-te-ei que mo expliques quando nos encontrarmos. Não vejo nenhum dos meus irmãos. E aquele João, já não sei eu bem se é o meu discípulo, se o filho de Zebedeu, que tem o mesmo nome. Como quer que seja, vou dizer a frase que de mim se espera: “Mulher, aí tens o teu filho. João, aí tens a tua mãe.” Oxalá se dêem bem.

 

Palavra Quarta

Deus, Pai, Senhor, as palavras atropelam-se na minha cabeça, a ponto de já não saber se serão realmente minhas ou se as terei lido ou ouvido em alguma parte, e agora não faça mais que repeti-las de maneira mecânica, como uma criancinha que a duras penas aprende a falar. Pelo menos, tenho a certeza de que as palavras que irei proferir me sairão da boca somente para que se possa anunciar amanhã que as escrituras foram cumpridas uma vez mais. Escuta-as e diz-me se não tenho razão: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Quem me ouvir pensará que esta é a primeira vez que tu abandonas alguém e que por isso é de justiça que a pergunta seja lançada aos quatro ventos do alto desta cruz, como um aviso às pessoas. Mas tu, Deus, Pai, Senhor, desde o princípio do mundo que criaste não tens feito outra coisa que abandonar-nos. Recorda aqueles a quem, por causa de uma maçã e uma serpente, expulsaste do paraíso terrenal, recorda o espírito vingativo com que puseste diante da porta os querubins e uma espada de fogo para que eles não pudessem regressar. Crês tu, Deus, Pai, Senhor, que ao menos uma vez na vida, e em muitos casos todos os dias e a todas as horas, a espécie humana não teve motivos para fazer esta mesma pergunta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”? Que estás longe, dirás, que não podes acudir a tudo, que o homem foi feito para que governasse a sua vida sem depender de deus ou deuses, mas em teu nome, quando não tu mesmo, há quem afirme que nascemos servos e servos seremos até ao fim da vida porque tu és a causa primeira e porque, ao mesmo tempo que nos vai abandonando um a um, nos manténs agarrados na tua mão. Eu próprio te fiz a pergunta e tu não respondeste. Razão tinha aquele que disse que Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio. Acabe-se o homem e tudo se acabará. Abandonados já estamos, eles, eu, talvez também tu, que nem a ti próprio te podes valer. Até para alegadamente salvar a humanidade tiveste que derramar o meu sangue.

 

Palavra Quinta

Deus, Pai, Senhor, ainda que possa parecer extraordinário, ou mesmo incrível, que alguém à beira da morte, tal eu estou, sinta sede e imagine ter tempo e forças para beber um vaso de água, foi isto o que acabou de suceder. Talvez, em realidade, eu não tivesse autêntica sede, talvez tivesse sido apenas a recordação súbita da frescura de uma água que para sempre iria perder, a sensação de senti-la a descer por uma garganta que em breve se cerraria, o que me fez soltar aquele grito: “Tenho sede!” Sem que eu o esperasse, quase imediatamente uma esponja molhada me tocou a boca e o sabor da água misturada com vinagre me restituiu por um instante o alento. Olhando para baixo vi um homem que segurava uma cana, esta a que veio atado o misericordioso socorro, porque bem sabemos, os que nunca tivemos gelo para refrescar a água nas canículas do verão, que juntar-lhe um pouco de vinagre é remédio infalível para as piores sedes. O homem baixou a cana, tornou a empapar a esponja, e outra vez ma fez chegar aos lábios. Depois, porque os soldados romanos se acercavam com as suas lanças e faziam gestos ameaçadores, o homem retirou-se, segurando a cana ao ombro e levando o balde da água e vinagre na outra mão. Foi isto o que se passou e não qualquer outra história que venha a contar-se no futuro, como se o sofrimento de quem foi condenado a morrer na cruz não fosse já bastante para encher o livro. Talvez a alguém se lhe ocorra escrever, e por todos os modos repetir, que quiseram dar-me vinho misturado com fel ou com mirra. Não é verdade. E agora, Deus, Pai, Senhor, peço-te um último favor. Que não faças esperar este homem até ao dia do Juízo Final, que o chames a ti no preciso momento em que morrer, e que tu mesmo o vás receber à porta do paraíso. Reconhecê-lo-ás facilmente. Leva uma cana ao ombro e um balde com água e vinagre na outra mão.

 

Palavra Sexta

Deus, Pai, Senhor, tudo está cumprido. A cruz em que me pregaram não tardará a ter um cadáver nos seus braços, tal como, desde o princípio do mundo, foi por ti decidido que haveria de suceder. Será, por ser a minha, suficiente esta morte para a salvação da humanidade? Para salvá-la de quê ou de quem? De si mesma? Do inferno que tu mesmo fabricaste, uma vez que não havia mais ninguém que o pudesse fazer? Sou eu o cordeiro que Abel te sacrificava, ao mesmo tempo que desprezavas o trigo e o centeio que Caim te oferecia? Porquê? Não terás sido tu, Deus, Pai, Senhor, quem armou a mão de Caim para que na primeira página da história dos homens se anunciasse já o futuro que lhes estava guardado, sangue, morte, destruição e tortura desde esse dia e para sempre? E porquê ficou o crime de Caim sem castigo? Porquê teve Abel de morrer? Conhecerás tu, Deus, Pai, Senhor, o sentimento do remorso? Porquê, contra a simples justiça, prosperou o assassino, ao ponto de fundar uma cidade e ter descendência como qualquer homem comum, com as mãos limpas de sangue alheio? Sem querer faltar ao respeito, foste e serás sempre um deus dúplice, com duas caras, dois pesos e duas medidas.

Não creio que a minha morte vá servir para que os homens se salvem nem que, sem ela, se perdessem mais do que já estão. Não imaginas, Deus, Pai, Senhor, como os seres humanos são complicados e difíceis de entender. Seja como for, fiz tudo o que tinhas ordenado. Por isso está morrendo um homem nesta cruz.

 

Palavra Sétima

Deus, Pai, Senhor, nas tuas mãos entrego o meu espírito, que a carne que o continha, essa, ficará agarrada a este madeiro enquanto o que de mim resta não for levado ao túmulo, donde ao terceiro dia ressuscitarei, se foram certas as palavras que puseste na minha boca para que as ouvissem os que me seguiam. Censurou-mas Pedro, que me chamou de parte e disse: “Deus te livre de tal. Uma coisa assim nunca te há-de suceder.” E eu respondi-lhe: “Sai da minha frente, Satanás. Impedes-me o caminho, porque não entendes as coisas à maneira de Deus, mas à maneira dos homens.” Foi isto o que eu lhe disse, mas agora, Deus, Pai, Senhor, agora que o meu espírito já deve ter chegado às tuas mãos, permite-me que procure, também eu, entender as coisas à maneira dos homens. Poderá o meu corpo, sem um espírito que o anime, levantar-se e sair do sepulcro, arredando a pedra que lhe tapa a entrada? E outra pergunta mais. Que sucederá comigo durante esses três dias? Apodrecerei? Será já com os primeiros sinais de podridão na cara e nas mãos que me apresentarei diante de Maria Madalena? Vivi no mundo como homem durante trinta anos, primeiro criança, depois adolescente, depois adulto, até este dia. Se te digo coisas que estás farto de saber, é para que compreendas por que razão aparecerei a Maria Madalena antes que a qualquer outro.

Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espectáculo valeu a pena. E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?

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publicado por Fundação Saramago às 13:18

"O Poeta Perguntador" - antologia de Armindo Rodrigues organizada e apresentada por José Saramago, na editorial Caminho em 1979

Sábado, 10.01.09

Em 1979, José Saramago organizou a primeira antologia da obra poética de Armindo Rodrigues, seleccionando 185 poemas de um "monumento de mil seiscentos e tantos poemas" que Armindo Rodrigues escreveu ao longo da sua vida [1904-1993].

 



Em "Alguns dizeres sobre Armindo Rodrigues e esta antologia", em jeito de texto introdutório, José Saramago escreve:

"A antologia perfeita será provavelmente aquela que, gracas a escrúpulos minuciosos de dosagem, rigorosa equidade e imparcialidade de juízo, consiga apresentar, da produção de qualquer poeta, uma imagem que não, obstante a forçosa abreviação quantitativa, conserve a figuração geral dos temas e dos modos, com entrada proporcional de todos os elementos textuais constituintes da obra. Qualquer coisa, enfim, como uma redução à escala e um quebra-cabeças.

Porém, ai de nós, a perfeição não pertence a este mundo, nem sei se a qualquer outro. A perfeita antologia não existe. [...] A antologia é o estádio mais avançado da leitura pessoal, maneira particular de apropriação do poema, re-escrita. Mais ainda: é sempre leitura pessoal em conjuntura, tanto do ponto de vista do antologiador como da situação da obra no tempo e da relação do tempo com a obra.

[...]

Esta antologia tem um título: O Poeta Perguntador. Poderia não ter: não é sequer habitual. Não faltará quem o ache extravagante, ou prosaico (o pior que se pode chamar à poesia, segundo parece). [...] Prefeririam talvez os melindrosos o emprego de palavras como indagador, questionador, problematizante, qualquer coisa que enobrecesse a ideia e a não deixasse tão nua, tão directa, tão (digamos a palavra) popular. Mas Armindo Rodrigues é um poeta de rua, de lugar habitado, não um poeta urbano; é poeta de charneca e montado, não de cepa bucólica. Um poeta como ele não anseia, não indaga, não questiona. Pergunta como qualquer homem comum que apenas quer saber o caminho, pergunta sempre e a todos, pergunta a si próprio, é, em três palavras simples, o poeta perguntador. E logo isto pode merecer alguma reflexão.

[...]

Este poeta perguntador é um poeta de exigência. E a exigência é talvez a grande necessidade cultural, ideológica e artística destes tempos portugueses. Que respostas teremos nós para dar a um poeta que insistentemente nos pergunta

 

Quê, quem,

de quem, de quê,

onde, donde, por onde,

há, pensa, move, tem,

busca, sugere, esconde,

quê, porquê,

para quê?

 

Não será em todos os casos um programa para poetas. Mas é com certeza um projecto possível para homens."

José Saramago

Lisboa, 1979

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publicado por Fundação Saramago às 10:55





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